Domingo, Novembro 27, 2005

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O título já diz tudo, né... Foi uma postagem retirada do site Nova E.
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Mutley, faça alguma coisa

(Por Elenara Iabel Cariboni)

A política tem hoje tanta serventia como a carruagem da rainha da Inglaterra e a escrivaninha de trabalho do presidente Lula: ajudam a ornamentar fotografias oficiais. Mas, as aparências precisam ser mantidas, os palácios precisam estar funcionando, a criadagem precisa estar em atividade para dar impressão de movimento; os parlamentares precisam comparecer nas câmaras, assembléias, congressos legislativos para dar nomes às praças, instituir o dia do canguru perneta, dar medalhas a apresentadores de televisão; os tribunais precisam estar abertos, as togas precisam distribuir justiça para o lado mais forte. Hoje em dia, tanto faz votar em um candidato ou no seu oposto para a presidência da República, o vencedor seguirá sempre as mesmas regras que beneficiem o mercado.E, ainda que a história nos mostre que a humanidade, sob o comando de algumas centenas de ególatras, tem sido forçada - ou induzida - a escolher o caminho oposto ao da conciliação e da consensualidade, estou certa de que não podemos aceitar tais fatos como se eles fossem a prova irrefutável de que a natureza humana jamais mudará e de que jamais poderemos implantar sobre a Terra um sistema de relações políticas no qual a pluralidade, o respeito mútuo e a solidariedade sejam as principais regras.Tu lembra do Mutley? Aquele cachorro co-piloto de Dick Vigarista da Corrida Maluca, que só pensava em medalha? Toda hora, a cada feito só sabia dizer com uma voz rouca: “medalha, medalha, medalha”. A Corrida Maluca foi talvez um dos desenhos mais superpopulosos da época, mais de vinte competidores - entre homens, uma mulher, bichos e alguns seres esquisitos - espalhados em onze carros, que corriam por várias trilhas, estradas, caminhos. Alguns personagens eram mais populares, faziam mais sucesso que os outros. Ao lembrar do desenho, qual deles é inesquecível? Penélope Charmosa? Dick Vigarista? Quadrilha da Morte? hehehehe...Mutley, é certo! Um cachorro com a risada mais difícil de ser imitada dos desenhos. O enredo do desenho era sempre o mesmo: quem chega primeiro à linha de chegada. Praticamente não havia regra nenhuma, um carro comum podia correr ao lado de um avião, Dick Vigarista sempre livre para fazer o que bem entendesse para atrapalhar os adversários. Metade do desenho consistia nas falcatruas de Dick: a elaboração do plano macabro e o respectivo se deu mal, preguinhos, óleo e engenhocas destruidoras e a derrota, líquida e certa. Sempre à frente, ele sempre se adiantava dos demais... era só continuar à frente e ganhar a corrida. Mas, não! Ele queria trapacear e nunca se dava bem no final. Todos passavam e ele ficava perdendo tempo com seu plano infalível, acabava em último. E, além de não ter vencido sequer uma corrida em vários episódios, ele ainda tinha que aturar a risadinha sarcástica de seu cão-cúmplice. Alias, falando do Mutley, tinha sempre um quadro em que o Mutley estava sonhando e o Dick Vigarista tentava acordá-lo: "Mutley, voce nao é Bungadin, nem um rei que foi coroado...". Terminava com o Mutley rindo. Era o maximo! A semelhança da personalidade do Mutley com algumas pessoas não é coincidência. Afinal, “Mutleys” são mais comuns do que se imagina. Existem duas formas de encarar uma trilha. A primeira é seguir os caminhos marcados, como ovelhas obedientes. A segunda envolve mais ousadia, característica que diferencia os homens dos roedores sujos e lamacentos que habitam o subsolo das metrópoles.Embora seja claro que a liberdade pessoal é uma ilusão, o conceito de liberdade pessoal tem grande significado em nossa cultura, sendo ninguém que se resume à estruturas, constituindo antes um indivíduo inconfundível e singular sem, no entanto, poder subtrair-se às estruturas. Ao contrário da liberdade, igualdade é sempre uma dimensão social, não individual, e ocorre sempre dentro de um grupo social, ou entre grupos sociais, e não entre indivíduos isoladamente considerados. Trata-se de compreender o problema das diferenças em planos diversos: na dimensão social-estrutural que diz respeito à diferenças entre disparidades econômicas, racismo, antisemitismo, sexismo... O homem, sozinho, não representa a humanidade e a mulher, antes de ser um sexo, é um indivíduo, por exemplo.Não há dúvida de que o reconhecimento pela realização de um trabalho seja importante. No entanto, dependendo do tamanho da importância que se dá a essa necessidade de reconhecimento, pode-se acabar sofrendo em função disso. Essa necessidade de reconhecimento jamais pode ser maior ou mais importante do que a realização do trabalho em si. Não posso permitir que a vaidade administre o ego, que costuma ser carente. Precisaria monitorar o nível dessa carência. Caso contrário, passaria a agir como um Mutley, sempre querendo medalhas por cada milímetro de sucesso de cada ação. Ah, deu certo! funcionou! Que bacana... Será que devo cobrar que a sua opinião seja a minha e que seja adotada? É bem diferente... exercício diário: manter o espírito crítico alerta e ao mesmo tempo discreto, principalmente quando tenho que avaliar meu próprio esforço e trabalho. Eis a questão. Considerando que o que se espera é, no mínimo, um trabalho muito bem realizado, é prudente reconhecer que o silêncio por parte das pessoas, em muitas situações, constitui-se em uma forma de aprovação do que foi feito. Quando se analisa o comportamento do Mutley, percebe-se que seu erro não está, necessariamente, em querer a medalha. Seu erro está no fato de tornar a insistente conquista da medalha muito mais importante do que o próprio feito. Com o tempo se passa a fazer isso sem perceber e o dia a dia passa a ser uma busca incessante por “medalhas” e reconhecimentos. Sem dúvida, uma postura perigosa em qualquer ambiente e em qualquer situação. O sofrimento costuma ser do tamanho da expectativa."Já somos o esquecimento que seremos, a poeira elementar que nos ignora, que não foi Adão e que é agora todos os homens. Somos apenas duas datas: a do princípio e a do término. Não sou o insensato que se aferra ao mágico som de seu próprio nome. Penso com esperança naquele homem que não saberá o que fui sobre a terra. Abaixo do indiferente azul do céu, esta meditação é um consolo." (Esquecimento - Jorge Luis Borges)Mutley, faça alguma coisa!

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